Depois de um certo tempo de sua vida, olhar no espelho é ver o seu futuro. Nunca nos sentimos exatamente como nos vemos e no que aparece refletido. Somos mais jovens e ainda cheios de ilusões. A imagem é uma coisa que ainda está longe de se concretizar no seu interior. Conversando ouvimos a nossa mesma voz, conhecida e com o mesmo timbre. Batemos papo com os amigos e nos sentimos iguais como anos atrás. É um mundo auxiliar e intermediário que tentamos criar para escapulir da verdade. As pessoas, principalmente as estranhas, começam a lhe trazer à realidade com os famosos senhor para lá ou senhora para cá, vão lhe entregando a cabeça da verdade numa bandeja, e ela tem a sua cara. Neste momento vamos sentindo que só somos os mesmos para nós e assim mesmo escondido no fundo de nossa alma. Concordamos que infelizmente o espelho estava certo. Experimente correr, subir numa árvore, nadar lá fora da arrebentação, coisas que você sempre fez com a maior naturalidade.
Dizem que os mais novos acham que uma pessoa é velha quando esta tem mais de 15 anos do que ela. Vejamos, uma menina de 10 anos não namora um 'coroa' de 25 com toda certeza, mas uma pessoa de 30 não vejo problema com uma de 45, e esta com uma de 60, ai já começa a complicar, não? Varia muito de quem é o mais velho, o homem ou a mulher, infelizmente é assim embora exista uma tendência muito grande a igualar esta questão, as novelas não me deixam mentir. O joven se apaixona por uma belíssima cinqüentona que tem um filho da mesma idade ou até mais velho do que ele, temos visto e ouvido muito disso. Acho ótimo. Que conversa mais doida, mas dá para pensar.
Eu nunca vi espelhos tão bons como aqueles colocados no fundo dos elevadores, são de ótima qualidade e com a iluminação ideal, mostram exatamente como você aparecerá na festa que o amigo do seu amigo te convidou por tabela.
Pega muito mau, mas o que se há de fazer, esta é a realidade. Coragem aperte o número do andar e pague para ver, poderá até descobrir que a lei que diz que os iguais se atraem é uma mentira deslavada, e de repente, você se dar muito mal por ser o jovem da festa. Tá reclamando do que, não era isto que você queria, garotão?
Agradecimento(Matéria Acima)
'Veja só... E como será que o blogueiro do Cultura e Pensamento lida com isso? Bem, por via das dúvidas, vou evitar espelhos por uma semana'.
- BloggerMan [16.9.05]. Matéria citada no Blogger Waht's Up.
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Meg três quilos de personalidade marcante
Cães amigos, sinceros, não sabem ser de outra forma. Sinto saudade de Meg, faleceu há três meses, e me levou à uma tristeza natural. Sinto a falta de seu sorriso. Claro que vai passar, o tempo se encarregará disto, dizem. Cachorrinhos para pessoas responsáveis, são filhos que sempre morrem antes dos pais. Estou em paz e Meg está em paz. Nunca tentei humanizar meu cão seria um desrespeito, somos iguais na natureza, mas diferentes na personalidade, enquanto compatíveis no companheirismo. E assim vamos levando nossas vidas complementando-nos. Pássaros por exemplo tenho dezenas de todas as cores, qualidades e cantos. Todos presos em seus próprios mundos e interesses, como eu. Gaiolas seria o mesmo que um criminoso em países do mundo humano, jogados nos corredores da morte por algum ou nenhum crime, não me cabe julgar, mas o pássaro que é puro nervo e asas, penas e cores, sabedoria necessária, será sempre um prisioneiro inocente. Pássaros gostos deles em suas árvores. Enquanto afagamos um cãozinho, aquele tempo não se conta, nem para mim nem para ele. É um ganho simbiôntico sem medidas à relação de amizade entre nós. Sinto-me bem quando me lembro da Meg, minha pequena e doce York. Descanso em sua lembrança com uma melancolia agradável. São tão amigos que nos ensinam sofrer e resignarmos com o advir inexorável. (Primavera de 2005)
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Senhorinha Vitória
Vitória senhora.
Barbárie declarada
coragem e decisão.
Ladeira dos Tabajaras, o errado era o certo.
Seu combate era difuso, contra monstros e senhores do mundo.
Filmou e não julgou, informou e se arriscou mas a cidade calou-se, de medo.
Do medo fez sua vitória, aprisionando-os em sua câmera. Vitória para eles não se rendeu.
Senhorinha Vitória fez sua parte. Ensinou-nos o que é a coragem.
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Idade do Entendimento
Lendo Affonso Romano de Sant’Anna, cheguei num poema que naquele momento me fez pensar diferente, nem mais , nem menos, apenas pensar à vida no meu tempo. O título já convidava a pensar toda minha existência. O poema em si então remeteu-me a várias épocas de minha vida. “Além do Entendimento”.
"A essa altura /
há coisas /
que (ainda) /
não entendo /
Por exemplo: /
o amor. Faz tempo /
que diante dele /
me desoriento /
O amor é intempestivo /
eu sou lento./
Quando ele sopra /
- estatelado – /
mais pareço /
um catavento".//
Sempre certas verdades de minha vida vão sendo esquecidas ou modificadas a cada outono, e agora que estas fases do ano me parecem mais perto umas das outras, me sinto mais desatento a certos acontecimentos.
Me desoriento diante do que dizem alguns, tenho dificuldade de entender outros, talvez tenha entrado no período do entendimento seletivo, como o próprio outono do Rio, que agora começa no início da primavera, sem pressa, apenas no seu novo tempo.
Não me afetam estas novidades no entardecer de minha vida, pelo contrário, me agradam, dou-me o direito de ser mais lento e sinto que tenho muito mais tempo de fazer e sentir as coisas, como, por exemplo, pensar e agir.
O poeta quando diz que "havia mais uma certa ordem naquele tempo / um quadrado era perfeito / e um triângulo de três lados / podia chegar à perfeição"//; em seu poema In Illo Tempore, acalenta meu coração confirmando que as mudanças destas ordens sejam naturais: "Havia uma certa ordem naquele tempo". Sim naquele tempo, hoje continuam ordenadas mas noutro tempo. A mesma música mas em outro compasso, imprimindo um novo e belo ritmo. Alguns amigos por vezes não percebem esta nova ordem soberana.
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Um bravo
Meu pai sempre falava: as coisas vão melhorar neste país, dessa forma não dá mais para ficar. Realmente mudou, para pior. Ele era daqueles que acreditava que o mar não se contaminava. Era muito forte e vasto para que isso acontecesse. Em 1996 faleceu . Trabalhara por 80 anos.
Gosto de lembrar de meu pai, nunca ficou doente, e vinte anos antes de morrer havia me dito, sentado em sua cadeira de trabalho no seu escritório; - Aqui será o lugar onde estarei quando a morte me chegar.
Cumprindo sua responsabilidade de empreendedor que se preocupava com cada pessoa que com ele trabalhava, dizia que esta era uma das responsabilidades que uma empresa tinha com a sociedade. E foi lá naquela cadeira que o encontrei, sentado, como se tivesse adormecido, como vaticinara há mais de vinte anos antes. Era um bravo. Um imigrante que veio do Egito, Cairo, para o Brasil para ficar, era naturalizado, jurou bandeira e tudo mais, este país era seu orgulho, e aqui plantaria a semente de sua árvore da vida. Determinado momento, com mais de setenta anos, adquirira o direito de não mais votar, nunca se utilizou deste direito, encarava na maior tranqüilidade a fila na sua seção para cumprir seu compromisso com este país. Um Republicano sério. Foi bom para ele, hoje em 2005 pós Roberto Jefferson não seria o Brasil de seus sonhos, até o mar foi atingido pela poluição, mas não todo ele, o retorno do oceano ao seu estado normal de saúde não seria tão difícil. Ele é grande e forte como dizia meu pai, basta que o homem permita, terminando com tantos acidentes ecológicos e atividades predatórias que ele rapidinho estará saudável, límpido como em muitos lugares do planeta, de difícil acesso ao homem ou em regiões de proteção ambiental.
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Bola ou Búlica
Outro dia numa conversa me peguei falando paulistês, uma língua estranha que chama batata barôa de mandioquinha, porteira com o ‘r’ exatamente como se menino dela fosse, lembram da música Menino da Porteira, bem roceira (Zé Dirceu). O que eu queria dizer era teatro, escreve-se assim mas se pronuncia "tiatro", vou ao tiatro e não ao teatro, como biscoito e não bolacha, se esta língua pega, o que é difícil, viraremos interiorano de marca maior. Carta é Carteira Nacional de Habilitação, holerite é contra-cheque, ô coisa!
Veríssimo na sua crônica de domingo, aliás ótima como sempre, dia 28 de agosto de 2005, tentava explicar um jogo de bola de gude como se fala lá no seu querido Rio Grande do Sul. Vou contar como se joga no Rio: existem três tipos de bolas de gude, bola de gude propriamente dito, que são as de tamanho normal e de vidro comum, o olhinho, feitas de um vidro leitoso e mais elaboradas, aliás não são as melhores e o bolão ou olhão que seriam os dois modelos em tamanho maior, pouco utilizadas. O jogo mais usado aqui no Rio é chamado de búlica, três buracos eqüidistantes em linha reta, no chão de terra, onde começa quem lança sua bola mais perto do terceiro buraco que estão em linha, tanto faz se é daqui para lá ou de lá para cá que começa a disputa. Se por acaso no início do jogo um dos participantes consegue fazer de cara uma búlica, ou seja lançar a bolinha direta no terceiro buraco, já está com a chance de começar a ‘matar’ as bolas dos outros adversários cujas bolinhas estejam por perto desta búlica que ele acertou direto, mas se acontecer que algum outro competidor também acerte neste mesmo buraco na primeira jogada, ai, aquela partida estará cancelada, começará uma nova partida. Entendido isto Veríssimo nos ensinou que lá no Sul joga-se às brinca ou às ganha, nós cariocas também jogamos assim, à brinca ou à vera. Existiam também as bilhas, ao invés das tradicionais bolas de vidro uns gaiatos quererem usar as tais bilhas. Manja aquelas esferas de aço de rolamentos de automóvel, quando não aparecia um esperto com bilhas de caminhão, ai era covardia. Uma boa tacada com uma bola de gude convencional já poderia partir ao meio a bola do adversário. As
bilhas estavam fora de questão o seu uso. Quem jogava à vera poderia pagar ao adversário com bolas cacarecadas ou partidas, ninguém era doido de pagar com seu melhor olhinho, campeão, sempre na cena do jogo, e estes a passavam para frente em seus momentos de perdas. Todas as regras eram cumpridas. Eram meninos sérios. Quando tinham dúvidas que poderiam errar uma bola perto da búlica e para não perderem a vez gritavam: - ou bola ou búlica! Valeu. Alguns cresceram e viraram deputados, acontece e o país precisa dos bons. Carambolou, termo quando o jogador tinha que acertar na bola de um adversário e acertava também a do outro jogador, partida encerrada sem vencedores. A melhor estratégia do jogo era ficar por último no início da partida, para isso o jogador tão logo tenha sido anunciado o jogo, gritava a palavra, - marráio! Outra era numa situação quando muitas bolas juntas, um jogador querendo se aproveitar do erro do adversário da vez, dizia: ferido sou rei, mas ferido tinha uma pronúncia especial, então ficava assim: feridô sou rei. Ô coisa organizada.